AUTOFRICÇÃO
Capítulo VI
Raramente meu pai me levava para passear, e quando isso acontecia possivelmente era resultado de uma pressão da minha mãe. Então Jouralbo me levava até a Praça do Japão, que era relativamente perto da nossa casa. Uma praça enorme numa ladeira, com um lúgubre lago feito de pastilhas onde repousavam estátuas gigantes e quadradas .
Lembro do filme Zardoz, ficção futurística estrelada por um Sean Connery de sunga vermelha. Passava na Globo de madrugada e meu pai também pirava com esse filme. Entre outros elementos lisérgicos havia uma caverna voadora, se não me engano.
(Agora me ocorreu que as estátuas pareciam bonecos de Lego, mas sem o sorriso.)
Para mim o lugar onde ficava a Praça do Japão era lugar “de rico”, cheio de mansões em volta, mas é difícil saber qual era meu conceito de mansão na época. Deviam ser apenas casas maiores que a nossa.
Mas raro mesmo era meu pai me levar ao cinema. É, isso era um evento. Evento na cabeça dele, claro, que era tão sovina que pagava minha entrada e me esperava fora do cinema para não ter que gastar com dois ingressos. Acho que vi uns filmes da Disney ou do Herbie, o Fusca precursor dos carros sem motorista.
Eu tinha uma fixação nos filmes da Disney. Para mim eram a expressão máxima da beleza produzida pela mão humana. Nas tardes de sábado da Globo passavam desenhos animados da Disney, quase sempre os mesmos curtas do Mickey, Pateta e Pato Donald. Eu ficava frustradíssimo porque queria ver os longas como Peter Pan, Aristogatas ou Dumbo mas nunca passavam. Cheguei a escrever uma carta - ajudado por uma irmã ou pela minha mãe - para a RBS, repetidora da TV Globo no Sul, implorando para que exibissem os filmes. Eu achava que o espectador tinha algum poder de barganha. Um otimista, o pequeno Allan.
Então eu ficava lá, assistia o filme e meu pai me esperava do lado de fora, provavelmente bebendo água de um bebedor, jamais pagaria por um refrigerante ou um café na rua.
Nos últimos anos, antes de ter o cérebro carcomido pelo Alzheimer ele sempre me falava do grandioso plano que tinha em mente: levar minha mãe até o Shopping Bourbon, a sete quadras de casa, para tomar um chá com bolo.
“Mas pai, porque tu não leva ela hoje? Eu pago.”
“ Não, ela nunca quer.”
E não queria mesmo, de tanto passar perrengue por falta de dinheiro Eva Iolanda também desenvolveu sua própria sovinice.
Organizei dois livros em quadrinhos sobre a vida do meu pai como desenhista dos anos 1950 aos anos 1980, “Ninguém me Convidou”, em 2010 – provavelmente o livro de estréia mais tardio de um quadrinhista, aos oitenta anos - e “O mundo segundo Jouralbo”, de 2016. Para esses livros entrevistei meu pai diversas vezes e juntei dezenas de horas de depoimentos dele sobre a própria vida. Baseado nesse material eu fazia o roteiro para ele desenhar os capítulos de “Ninguém me convidou” e passava para ele por carta. Já no “O Mundo segundo Jouralbo”, eu saquei que ele já não estava mais com saco nem saúde para desenhar tudo e passei os roteiros para quarenta desenhistas do Brasil e do mundo. Ele só desenhou algumas histórias e fez ilustrações para certas passagens. Além das histórias em quadrinhos o livro é permeado por um diário dele, organizado pelo meu amigo e ídolo Fabio Zimbres, um cara que sempre tentei copiar sem sucesso. Que gentleman o Fabio. Tenho uma divida gigante com ele que não pretendo pagar tão cedo.
A memória de Jouralbo era prodigiosa antes do Alzheimer. Apesar da idade avançada ele lembrava endereços com ruas, números e nome e sobrenome de todo mundo que passou por sua vida.
Esses livros funcionaram melhor que qualquer terapia que eu já fiz. Fiz análise por uns anos, quando não estava tão na merda, mas no fundo eu não acreditava no processo e hoje acredito menos ainda. Vejo os analistas como os novos padres, a pessoa se confessa e recebe o livramento por seus pecados. Por hoje é só, meu filho, está absolvido. Só que ao contrário dos padres, os analistas cobram uma fortuna por essa absolvição.
Também não acho saudável jogar luz em todos lugares sombrios da minha cabeça. Meu guru Werner Herzog tem a mesma opinião. E se ele falou, ta falado.
Eis duas pessoas que jamais conseguiria encontrar na vida: Herzog e Robert Crumb, meus ídolos máximos. Meu Deus, me cagaria todo só em pensar em dividir o mesmo ambiente com esses dois iluminados. Tem quem lide bem com seus ídolos e até consegue puxar o saco e forçar uma amizade com eles, mas não é o meu caso. Eu só queria ser uma aranha para observá-los no canto de uma parede.
Numa dessas sessões de entrevistas meu pai contou algo muito libertador. Eu sempre ouvi falar na família a história de que quando eu nasci praticamente não tinha nenhuma roupa de bebê para mim, foi tudo comprado as pressas. Jouralbo em vez de providenciar roupinhas para o filho caçula temporão resolveu levar meu irmão mais velho para uma loja e comprar várias roupas para ele não se sentir preterido. Quando dei uma pressionada nesse assunto ele revelou que nunca quis investir numa relação comigo porque tinha medo de que mais tarde eu faria o mesmo que meu irmão fez, fugiria de casa e o abandonaria. Na cabeça dele não adiantava se apegar a um filho se não houvesse um amor recíproco. Era uma receita de decepção.
Meu pai era mesmo muito estranho. Mas ouvir essa história das roupinhas me tirou um peso, afinal a culpa não era minha, o problema era com ele.
Jouralbo, que pessoa complexa.
Talvez nome seja destino mesmo.



Mais um relato de grande categoria.